A culpa habita a essência humana. A força que moveu
a humanidade, mais que qualquer outra, foi a culpa. A culpa vem da primeira
transgressão. Uma coisa é conhecer uma Lei – “Da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal não comerás; pois se dela
comeres, morrendo, morrerás”. Outra é conhecê-la como transgressão.
O Conhecimento Informativo não gerou culpa, nem
vergonha, nem medo, nem fuga. Mas quando o “fruto” foi comido, tendo antes
aberto o apetite de modo alienígena... Era como o gosto de “pular a cerca”...
Despertando também os sentidos estéticos... Pois o fruto era belo de se ver...
E criando uma ambição de autodivinização... Ser como Deus... Conhecedor do Bem
e do Mal. Ah!... Então, veio o conhecimento da Lei... E tal conhecimento é
sempre experiencial.
Somente a transgressão à Lei dá conhecimento dela,
pois a Lei só se faz conhecer como culpa ou medo. É dessa culpa essencial que
procedem todas as neuroses humanas. E como o sexo é o clímax de toda
experiência sensorial que os humanos podem ter... Então, ele foi o ponto de
convergência de quase todas as neuroses. “Vendo
que estavam nus, fizeram para si coberturas... Cintas de folhas de figueira”
– foi como a culpa se expressou primeiro: como negação do prazer.
O bem virou mal. O mal virou bem. Houve uma
inversão. O mais belo se tornou o mais feio; e o mais digno se transmudou em
vergonha; e o grito de gratidão pelo prazer –“Esta afinal é carne da minha carne!” – passou a ser algo acerca do
que a alma precisava se “dês-culpar”
... E se ter muita parcimônia.
Assim a vida humana é culpa... Culpa de ter
nascido... Culpa de gostar do que se diz que não se deve gostar... Culpa de
amar a quem está proibido... Culpa de ser amado e não corresponder... Culpa por
não se fazer amar... Culpa por não ter conseguido chamar de amor àquilo que um
dia se pensou que era... Culpa de não ser compreendido... Culpa de ter gerado
filhos... E não conseguir controlar os seus destinos... Culpa de possuir... Culpa
por não conseguir possuir... Culpa de não ter sucesso... Culpa de ter
sucesso... Culpa de se ser feliz... Culpa de ser infeliz... Culpa de não
alcançar as expectativas projetadas... Culpa da honra, da desonra, da cobiça,
do poder, da fraqueza, do desejo, da inapetência, do orgulho, da cobiça, da
falência, culpa... De ser.
É da culpa que vem todo o resto... Vergonha, medo,
fuga e, sobretudo, o medo-fobia da morte. Culpa
e Medo é a antítese de Graça
e Paz!
A psicanálise pode ajudar muito no problema da
culpa, identificando-a como neurose e ajudando o indivíduo a diminuir a carga
de seu existir... Mas somente quando
se toma consciência de que Jesus se fez pecado, culpa e vergonha por nós... É
que se está no caminho da libertação da culpa... A fim de que se vá
aprendendo a viver sem ela... Até que se entre na Paz.
A psicanálise faz o melhor caminho que a Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal pode fazer com os recursos que a ela estão
disponíveis no Éden... Digo que, quase todos os recursos, pois há um, o único,
que a psicanálise não pode ainda perceber... Ou o percebe... Mas o simboliza
demais, esvaziando assim o seu poder real e eficaz.
No Éden Deus cobriu o homem e a mulher com vestes de
pele de um animal... Roupas de sangue... Sangue de outrem. Freud não era o
segundo Adão! Somente no Segundo Adão, e em Sua obra Consumada aos olhos do
Criador – quando se fez pecado por
nós – é que a culpa pode
cessar por completo.
Somente quem crê que Deus aceitou como Consumado
tudo o que o homem devia a Ele; e crê que o Primeiro Crente é Deus, pois Ele creu
no Sacrifício de Cristo; e crê que se Deus Aceitou a Cristo, então quem o
aceita, aceita aquilo e Aquele que por Deus foi aceito no lugar de todos os
homens – Sim, somente este ser humano vai começar a entrar na Paz!
Aos
olhos de Deus o pecado foi aniquilado na Cruz,
conforme a Epístola aos Hebreus. Os
pecados que faziam separação entre nós e Deus foram de todo removidos. Por isto, todo aquele que invocar o Nome
do Senhor será salvo. Ora, essa salvação não é apenas um passaporte
para a eternidade. Ela é, sobretudo, uma certidão de libertação da culpa, da
vergonha e do medo... Inclusive o medo da morte.
É sem culpa que nós temos que tratar dos nossos
pecados. Pois com culpa apenas os aumentaremos e os fixaremos mais
profundamente em nós... Como “pecados próprios”. Eu preciso não ter pecado para
começar a pecar cada vez menos! Somente
aquele que, para quem toda condenação já foi cancelada, é que pode começar a
andar de modo a não se condenar tanto... E assim, pecar menos, pois a
condenação apenas nos faz pecar mais e mais...
Santidade
é o estado de todo pecador que vive sem culpa,
por que creu na Graça que é maior que a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
Esses, os que assim creram, desistiram da tal Árvore exatamente no momento em
que admitiram que a salvação é pela fé. Inverte-se a ordem gnóstica. Não é o Conhecimento que gera a Fé.
É a Fé que gera um Conhecimento em Fé,
que é um Conhecimento que se assume como Fé na Graça, e que se entende como
sendo também Graça... E não autodesenvolvimento.
Aqui está a esperança para se crescer para além de
todas as neuroses... Embora este seja um caminho estreito... E poucos acertam
com ele. Ele é estreito para o Conhecimento, mas é tão largo quanto a Fé; isto
para quem crê! Quem crê não será confundido...
Nunca mais!
